
Campo de Marte, São Paulo (Brasil), 11 de Maio de 2007.
Dia histórico e de júbilo para a Igreja Católica do Brasil.
Hoje, com mais de quinhentos anos de história, o Brasil pode finalmente apresentar ao mundo o seu primeiro Santo, Frei António de Sant'Anna Galvão, nascido em Guaratinguetá, no Estado de São Paulo, cidade não distante do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
Para as Histórias da Igreja Católica e do Brasil fica registrada nos seus anais a canonização de Frei António de Sant’Anna Galvão, cuja santidade, há mais de 200 anos assumida, acaba de ser, definitivamente, reconhecida por Sua Santidade o Papa Bento XVI, durante a missa campal realizada no Campo de Marte, em São Paulo.
Depois de, no dia 25 de Outubro de 1998, o Papa João Paulo II ter beatificado Frei Galvão, oficializando-o como o primeiro beato brasileiro e reconhecendo-lhe publicamente “o grau heróico de virtudes”, agora, foi o momento da sua santificação.
Finalmente, a Igreja Católica do Brasil, depois de venerar por mais de cinco séculos os santos do mundo inteiro, mereceu, também ela, com Frei António de Sant’Anna Galvão, as honras dos altares.
A partir de agora, todos os seus devotos poderão rezar e invocá-lo por: “Santo António de Sant’Anna Galvão, rogai por todos nós!”
A Canonização
Após a apresentação da Petição para a Canonização, pelo Cardeal Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, a Sua Santidade o Papa Bento XVI, imediatamente se sucederam as invocações litânicas e o pronunciamento da fórmula de Canonização, concretizando-se este ato com um momento de devoção popular, durante o qual, em procissão, as relíquias do novo Santo foram conduzidas ao altar.
Com formulário próprio do novo Santo, foi celebrada a Santa Missa e o Rito de Canonização, assim como na Profissão de Fé foram renovadas as promessas do Batismo e assumida a Oração Eucarística V.
Com este ato de transcendente significado espiritual e religioso, o Brasil, detentor do maior universo de católicos do mundo, viu, finalmente, no decorrer da primeira década do século XXI, consagrado o seu primeiro santo genuinamente brasileiro - São Frei Galvão, que, a partir de agora, passará a ser venerado por toda a Igreja Católica do Brasil e do Mundo.
Quem foi e o que fez Frei Galvão?
António de Sant’Anna Galvão nasceu no dia 10 de Maio de 1739, na cidade de Guaratinguetá, no estado de São Paulo.
Seu pai, o imigrante português António Galvão de Franca, Capitão-Mor, pertencia às Ordens Terceiras de São Francisco e do Carmo, dedicava-se ao comércio e era conhecido pela sua particular generosidade.
Sua mãe, Isabel Leite de Barros, nascida em Pindamonhangaba, São Paulo, era bisneta do bandeirante Fernão Dias Pais, teve o privilégio de ter onze filhos e morreu, com apenas 38 anos, com fama de grande caridade.
Ambos pertenciam a famílias profundamente religiosas (católicas) e, depois de terem seus primeiros três filhos em Pinda, foram residir em Guaratinguetá, onde se iniciou o percurso de São Frei Galvão que o havia de conduzir à Santidade.
Até aos 13 anos, quando seu pai mandou o jovem António de Sant’Anna Galvão para o Colégio de Belém, dos Padres Jesuítas, na Bahia, e onde permaneceu até 1756, sempre viveu na sua cidade natal, numa casa grande e rica, no seio de uma família profundamente piedosa e conhecida pelo seu elevado sentido de caridade para com os pobres que, para além de caracterizada por uma profunda religiosidade, também, gozava de elevado prestígio social e de influência política.
A sua decisão:
Tornar-se padre jesuíta, mas...
Face aos progressos experimentados e vividos no seio dos padres jesuítas, decidiu tornar-se um deles, mas, com a perseguição movida contra a Ordem dos Jesuítas, pelo Primeiro-Ministro de Portugal, o Marquês de Pombal, seu pai influenciou-o a tornar-se franciscano, pelo que, aos 21 anos, renunciou aos bens terrenos e ingressou no Noviciado, na Ordem dos Frades Menores Descalços da Reforma de São Pedro de Alcântara, no Convento de São Boaventura, situado na Vila de Macacu, no Rio de Janeiro.
Decorridos cinco anos, a 16 de Abril de 1761, prestou os seus votos solenes, destacando-se, não só pela sua piedade como de outras virtudes. No ano seguinte, mais precisamente, no dia 11 de Julho de 1762, foi ordenado sacerdote, muito provavelmente, no Convento de Santo António, do Largo da Carioca, na cidade do Rio de Janeiro.
Posteriormente, para aperfeiçoar os seus estudos filosóficos e teológicos, foi enviado para o Convento de São Francisco, em São Paulo, e, no dia 9 de Novembro de 1766, prestou os seus votos perpétuos, entregando-se, definitivamente, à Imaculada Conceição como seu filho e escravo perpétuo.
Em 1770, foi-lhe confiado o cargo de Confessor de um Recolhimento de piedosas mulheres, em São Paulo, onde travou conhecimento com a Irmã Helena Maria do Espírito Santo a quem, nas suas visões, Jesus lhe pedia para fundar um novo Recolhimento.
As suas Obras são uma
referência para a Humanidade...
Frei Galvão que, desde o início, ficara sensibilizado perante as visões relatadas pela Madre Helena, meteu ombros à obra e, no dia 2 de Fevereiro de 1774, fundava o Recolhimento da Luz. Com a morte da Madre Helena, no ano seguinte, Frei Galvão ficava sozinho à frente dos destinos da Instituição.
Nessa época, o novo capitão-general de São Paulo ordenou o encerramento do Recolhimento da Luz e Frei Galvão aceitou com fé a determinação, mas, ali permaneceu firme, enquanto o povo da cidade e o bispo, de tanto contestar a decisão e pressionar o capitão-general, o Recolhimento acabaria por ser reaberto.
Ao longo de quase década e meia, entre 1774 e 1788, o Recolhimento da Luz passou por sucessivas reformas que o tornou bem mais amplo. Imediatamente, foi dado início à construção da Igreja da Luz, cuja inauguração ocorreu no dia 15 de Agosto de 1802, na qual, para além de fundador, desenvolveu um papel preponderante como projectista e construtor.
Em 1811, Frei Galvão fundou o Recolhimento de Santa Clara, em Sorocaba, no Estado de São Paulo, e, por lá, permaneceu durante onze meses.
No dia 23 de Dezembro de 1822, viria a falecer, tendo sido sepultado na Igreja do Recolhimento da Luz, que ele próprio havia tomado a iniciativa de construir duas décadas antes.
A obra, hoje, denominada Mosteiro da Luz, já foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO.
“Homem da Paz e da Caridade”
Quando, ainda vivo, em 1798, o Senado de São Paulo definiu Frei Galvão como “homem da paz e da caridade”, porque assim era conhecido e procurado por todos como conselheiro e confessor, tal como de “o franciscano” que, no silêncio da noite, aliviava e curava os doentes e os pobres.
Segundo foi referido e sublinhado no texto do Vaticano:
“Frei Galvão convida-nos a crescer em santidade e na devoção a Nossa Senhora da Conceição, deixando, a todos os brasileiros, a grata mensagem de se tornarem pessoas da Paz e da Caridade, sobretudo para com os pobres e os marginalizados.”
· Factos Sobrenaturais
As pílulas milagrosas
sua génese e expansão...
Frei Galvão era um homem em oração permanente e, sobretudo, muito procurado para curar os doentes. Dele proviam fenômenos como levitação e bi locação, ou seja, estando fisicamente num determinado lugar, aparecia em outro lugar, para, no silêncio da noite, acorrer a ajudar, a aliviar e a socorrer os doentes e os pobres.
Reza a tradição católica, que as pílulas, hoje, reputadas como milagrosas, surgiram entre 1785 e 1788.
Nessa ocasião, Frei Galvão foi procurado por dois homens que lhe pediram que intercedesse pela saúde dos seus familiares: o marido de uma gestante com problemas no parto e o pai de um menino que sofria de doença renal.
Como não se pudesse deslocar, pessoalmente, até aos doentes, Frei Galvão resolveu escrever uma oração num pedaço de papel, que cortou em três pequenos pedaços e ofereceu aos homens, recomendando-lhes que fizessem os doentes tomá-los (ingeri-los) como remédio.
De acordo com os relatos da época, tanto a gestante como o menino, ambos ficaram curados.
Desde então, a fama das pílulas logo se espalhou pelo Brasil, e de tal forma que, até hoje, no Mosteiro da Luz, trabalham treze freiras na sua confecção:
- enrolam uma tira de papel de arroz em que está impressa dezessete vezes a oração escrita por Frei Galvão - uma prece em latim dirigida à Virgem Maria:
“Depois do parto, Ó Virgem, permaneceste intacta:
Mãe de Deus intercede por nós!”
que, depois, cortam em catorze pedaços para que as pílulas se transformem no formato de micro cânulas.
A partir desta, várias outras curas ocorreram, pelo que, dadas as freqüentes procuras e as suas constantes ausências e impedimentos, as irmãs do Recolhimento da Luz tiveram que o ajudar na confecção e distribuição das pílulas.
Diariamente, as irmãs religiosas produzem e distribuem mais de cinco mil pílulas aos fiéis que, pela manhã, se aglomeram diante do Mosteiro, em longas filas, em busca do remédio.
Os dois Milagres que determinaram
a elevação de Frei Galvão à Santidade
Após a morte de Frei Galvão, as irmãs dos Recolhimentos por ele fundados continuaram a confeccionar e a distribuir as pílulas milagrosas, e, eis que, em 1990, aconteceu o primeiro milagre.
1. Em data não determinada, uma criança de quatro anos, internada numa UTI - Unidade de Tratamentos Intensivos, vítima de hepatite aguda colestática, já estava absolutamente desenganada pelos médicos.
A sua situação clínica era, de fato, bastante complicada, pois apresentava coma por encefalopatia hepática - conseqüência do vírus A, insuficiência hepática grave, insuficiência renal aguda e intoxicação por causa de metoclorpramida, hipertonia intensa nos membros inferiores e superiores, com paragem cardiorrespiratória, epistaxe, sangramento gengival, gematúria, ascite, progressivo aumento da circunferência abdominal, broncopneumonia, parotidite bilateral, faringite, agravado por dois episódios de infecção hospitalar (Staphylococus aureus e bacilo Gram negativo).
Na pior fase da doença, a criança ingeriu a pílula de Frei Galvão e foi milagrosamente curada.
O primeiro beato brasileiro: A oito de Abril de 1997, graças ao milagre concedido à criança, Frei Galvão foi beatificado pelo Vaticano, tornando-se o primeiro beato nascido no Brasil.
2. O segundo milagre aconteceu, quando, em 1999, já depois da beatificação, a paulista Sandra Grossi de Almeida, hoje com 37 anos, sonhava ser mãe e já havia tido dois abortos espontâneos que, devido a uma má-formação do útero, não conseguia gerar uma criança. O feto só conseguia permanecer no útero até, no máximo, ao quinto mês e, logo, se processava o aborto espontâneo.
Diante da perspectiva de mais uma perda, desesperou-se, até que uma amiga lhe deu três minúsculos pedacinhos de papel enrolados em forma de cânula. Depois de ingerir as pílulas do Frei Galvão, conseguiu completar a gestação e dar à luz.
Infelizmente, a criança nasceu com membrana hialina em quarto grau que é uma grave complicação pulmonar e teve de ser rapidamente entubada. A mãe que já havia recebido a graça do Frei Galvão, não hesitou, novamente, em voltar a usar a pílula milagrosa e, em menos de 24 horas, o seu bébé estava curado.
E, perante este episódio clínico, se deu por encerrado o ciclo do milagre duplo, pelo que, após a sua confirmação, Sua Santidade o Papa Bento XVI, no dia 16 de Dezembro de 2006, reconheceu Frei Galvão como santo - o primeiro santo genuinamente brasileiro -, cuja canonização acaba de ocorrer, a 11 de Maio de 2007, no Campo de Marte, em São Paulo.
Embora intitulado oficialmente “patrono da construção civil”, pelo seu trabalho desenvolvido nas obras do Mosteiro da Luz e no Mosteiro de Sorocaba, os religiosos acreditam que agora, como santo, se deve vir a afirmar, definitivamente, como o “padroeiro das gestantes”.
Tanto mais, porque o milagre que deu origem às pílulas, assim como o que o conduziu à sua beatificação e santificação estão, diretamente, relacionadas, com gestações difíceis. De sublinhar que, depois da sua morte e posterior beatificação, a maioria das cartas, com pedidos endereçados a Frei Galvão, são provenientes de mulheres grávidas.
• Oração de pedido de glorificação de Frei Galvão
“Pai Santo, fiel remunerador daqueles que, nesta vida de exílio, buscam e trabalham para que em vida se cumpra a vossa vontade santíssima, pedimos humildemente a glorificação do Beato Frei António de Sant'Anna Galvão, concedendo-lhe socorrer a todos os que em suas necessidades, cheios de confiança, solicitarem a intercessão do "homem da paz e da caridade" e do filho devoto da Imaculada Conceição. Isto vos pedimos para a vossa maior honra e glória, por Cristo Nosso Senhor. Amém.”
(Pai Nosso, Ave Maria e Glória)
Mas, eis que surge a pergunta:
- Como se faz um Santo?...
Na realidade, são duas as vias, as estradas, que podem conduzir à Santidade: a do martírio e a das virtudes.
No final do processo, que poderá durar até mais de um século, a palavra final, após consultas aos bispos e cardeais, é dada, definitivamente, pelo papa.
Eis o passo-a-passo de uma canonização:
· Primeira fase: Servo de Deus
Um processo de canonização pode ser aberto pelo bispo da diocese em que a pessoa viveu, cinco anos após a morte do candidato.
Aberto o processo, ele é elevado ao status de Servo de Deus.
Um postulador, espécie de “advogado” do Santo, é designado pela diocese para defender a sua causa. O Vaticano, por sua vez, designa aquele que, vulgarmente, é designado por “advogado do diabo”, responsável por apontar eventuais falhas no processo.
É o caso, presente, da Serva de Deus Irmã Dulce.
· Segunda fase: Venerável
Neste momento, o postulador precisa provar aos teólogos, historiadores e cardeais do Vaticano que o candidato viveu de forma exemplar as virtudes cristãs ou que morreu em defesa da fé.
Se as virtudes ou o martírio forem comprovados, o candidato ganha o título de Venerável.
Outro caso: o da Venerável Madre Maria Teodora Voiron, francesa, que viveu a maior parte da sua vida no Brasil.
· Terceira fase: Beato
Os mártires veneráveis só precisam aguardar os trâmites burocráticos para, em seguida, serem nomeados Beatos.
Os demais ainda precisam provar que realizaram um milagre, sendo que a sua confirmação passa pelo crivo de médicos e teólogos do Vaticano.
Foi o caso de Frei Galvão, que se tornou o primeiro Beato nato no Brasil, assim como do padre espanhol Beato Mariano La Matta, que viveu 52 anos no Brasil, e, no ano passado, foi beatificado em São Paulo.
· Quarta e última fase: Santo
Para que o Beato se torne Santo, é necessário que se comprove que ele realizou um segundo milagre, e que esse milagre ocorreu depois da sua beatificação. Uma vez comprovado, o candidato alcança a Santidade.
Como exemplo vivo e ainda recente, é relevante referir Santa Madre Paulina, italiana, que viveu no Brasil 67 anos e foi canonizada, pelo Papa João Paulo II, em 2002.
Agora, eis chegado o momento glorioso de Frei Galvão alcançar a santidade, tornando-se o primeiro santo genuinamente brasileiro: São Frei Galvão.
Irmã Célia Cadorin
A postuladora de Frei Galvão
Em todo o processo de santificação de Frei António Sant’Anna Galvão, importa dar particular destaque ao trabalho dedicado, empenhado e determinado da Irmã Célia Cadorin, da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que, ao longo dos últimos dezesseis anos, se entregou à nobre e jubilosa missão de transformar Frei Galvão no primeiro santo brasileiro.
Em 1991, Dom Paulo Evaristo Arns nomeou a Irmã Célia Cadorin, como postuladora da causa do frade franciscano - uma espécie de advogada do candidato à santidade, a quem coube providenciar documentos e testemunhos que, depois, enviados a Roma, deverão provar o preenchimento dos principais requisitos do Vaticano para ser alçado ao panteão dos santos católicos:
- Ter levado uma vida virtuosa;
- Ter realizado, pelo menos, dois milagres, reconhecidos pela Igreja e pela Ciência.
Tanto mais, porque a tarefa de comprovar a realização de um milagre constitui, de fato, a tarefa mais difícil de um processo de canonização.
Hoje, pelo trabalho desenvolvido e realizado, com muita humildade e dedicação, a Irmã Célia Cadorin tornou-se a principal especialista brasileira, pois foi a postuladora que conferiu maior dedicação, competência e profissionalismo ao processo de santificação de Frei Galvão.
Também ela, é digna e merecedora do nosso mais vivo reconhecimento e aplauso.
Concluindo...
... Sublinharia ainda, que evocar e exaltar Frei António Sant’Anna Galvão, a sua santidade e a sua ancestralidade portuguesa, recorrendo à sua vasta, riquíssima e extraordinária biografia, é, também, dizer, peremptoriamente, NÃO! ao processo de esquecimento nacional, uma regra que, cada vez mais, tende a ganhar raízes no mundo e no seio das instituições e das comunidades.
Eis, portanto, a razão deste meu contributo pessoal, ainda que muito humilde e modesto, mas elaborado com profundo sentimento, para que não se perca, também, o rastro da História recente do Catolicismo na LUSOFONIA, aonde todos, tal como Frei Galvão, falam a Língua Portuguesa, de Luís Vaz de Camões!
E, como em língua portuguesa, exprimimos os nossos mais profundos sentimentos e gratidão, nesta hora de grande júbilo e de grande exaltação para Igreja Católica Brasileira, me ocorra dizer, aqui e agora, em voz alta e bom som:
- Santo António de Sant’Anna Galvão, rogai por todos nós!
